Se você investe por meio de um escritório de assessoria e alguém perguntar quanto você paga por esse serviço,
a resposta provavelmente será um silêncio. Não por descuido: no modelo mais comum do mercado brasileiro, o custo do serviço
está embutido no produto e não aparece em uma linha separada do extrato.
O modelo fee-based existe para mudar isso. Este texto explica como ele funciona, onde ele difere do modelo por comissão
e, tão importante quanto, o que ele não promete.
Como funciona o modelo por comissão
No modelo tradicional, o escritório de assessoria é remunerado pela distribuição de produtos financeiros.
Cada produto disponível na plataforma tem uma estrutura de receita própria, que varia conforme o tipo, o emissor e o prazo.
Quando o cliente aplica, parte dessa receita remunera a cadeia de distribuição, incluindo o escritório.
O cliente não paga uma fatura separada. O custo está dentro da taxa de administração do fundo, dentro do spread do título
de renda fixa, dentro da estrutura da operação. Ele existe, é regulado e precisa ser informado, mas raramente é somado
e apresentado como um número único.
Esse desenho tem uma consequência estrutural: a receita de quem orienta varia conforme o produto escolhido.
Isso não significa que o assessor vá agir contra o cliente. Significa que existe um desalinhamento potencial,
e a própria regulação reconhece isso ao exigir transparência sobre formas de remuneração e potenciais conflitos de interesse.
Como funciona o modelo fee-based
No fee-based, a lógica se inverte. A remuneração é acordada previamente com o cliente e tem como base o patrimônio
sob acompanhamento e o serviço prestado, e não a escolha individual de cada produto.
Na prática, muda o que está sendo contratado. Em vez de pagar de forma indireta a cada operação, o cliente contrata
um serviço continuado: organização das informações do patrimônio, definição de prioridades, estruturação de uma proposta
de alocação, apresentação das alternativas disponíveis e acompanhamento ao longo do tempo.
O valor é conhecido antes de começar e formalizado por escrito.
O que muda na conversa
A diferença mais visível não está na planilha, está no assunto das reuniões.
Quando a receita depende da próxima aplicação, a conversa tende a girar em torno da próxima aplicação.
Quando ela não depende, três tipos de recomendação deixam de custar caro para quem recomenda:
dizer que o cliente não precisa movimentar nada agora, sugerir a saída de um produto que deixou de fazer sentido,
e apontar que uma parte do patrimônio deveria simplesmente ficar em caixa por um período.
Que conflito o modelo busca reduzir
Quando a remuneração é estruturada de maneira transparente e menos dependente da escolha individual de produtos,
busca-se aumentar o alinhamento entre cliente e assessor.
O verbo importa: busca-se. Nenhum modelo de remuneração elimina todo conflito possível.
No fee-based, por exemplo, existe um incentivo estrutural para que o patrimônio sob acompanhamento cresça,
o que também é um incentivo, ainda que diferente. O ponto não é que um modelo seja puro e o outro não.
O ponto é que o custo fica explícito e menos sensível a qual instrumento foi escolhido.
O que o fee-based não é
- Não é garantia de rentabilidade melhor. Modelo de remuneração trata de alinhamento e transparência de custo, não de resultado.
- Não é ausência de risco. Todo investimento envolve risco, independentemente de como o assessor é remunerado.
- Não elimina todo conflito de interesse. Reduz um tipo específico e cria incentivos próprios, que também devem ser conhecidos.
- Não significa que o modelo comissionado prejudique clientes. Os dois modelos são legítimos e regulados.
- Não é gestão do seu patrimônio. Na forma da legislação da CVM, o Assessor de Investimento não pode administrar
ou gerir o patrimônio de investidores. A decisão e a autorização de cada operação continuam sendo do cliente.
Para quem o modelo tende a fazer sentido
A adequação depende de três fatores: o tamanho do patrimônio, a complexidade da estrutura e a frequência com que
o cliente precisa de acompanhamento.
Quem tem patrimônio relevante distribuído em várias instituições, estrutura com mais de um objetivo e prazo,
e quer acompanhamento continuado costuma encontrar mais valor no modelo. Quem faz poucas movimentações,
tem estrutura simples e concentra tudo em uma única classe pode não encontrar.
Essa avaliação é feita caso a caso, com as condições de cada modelo apresentadas antes de qualquer decisão.
O cliente escolhe como quer ser atendido.
A pergunta que vale a pena fazer
Independentemente do modelo que você escolher, existe uma pergunta que vale a pena fazer a quem cuida dos seus investimentos:
quanto eu pago por este serviço, ao ano, em reais?
Se a resposta for clara e vier rápido, o modelo está funcionando. Se demorar, ou se vier em percentuais que não somam
um número final, vale insistir. Saber o custo é pré-requisito para avaliar se ele vale a pena.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento, oferta, análise ou consultoria de valores mobiliários. Todo investimento envolve risco e rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. Na forma da legislação da CVM, o Assessor de Investimento não pode administrar ou gerir o patrimônio de investidores.
O percentual depende do tamanho e da complexidade do patrimônio. Essa conta é feita antes de qualquer contratação.